Política

A polarização não é um problema!

O ambiente político polarizado nunca foi óbice para as democracias mais antigas do mundo funcionarem

Se você acompanha as análises políticas da mídia mainstream com certeza já deve ter ouvido por inúmeras vezes que o ambiente político brasileiro está muito polarizado, e que devido a isso a democracia brasileira corre sérios riscos.
O mesmo diagnóstico foi dado durante a campanha eleitoral de 2018 por Steven Levitsky, professor da Universidade de Harvard, autor de “Como as Democracias Morrem”, escrito em parceria com o colega de cátedra, Daniel Ziblatt, também de Harvard.

Na época, Levitsky declarou que a democracia brasileira era uma das mais robustas da região, porém enfrentava sua maior ameaça desde 1985. Em entrevista a BBC News em 2018, o cientista político americano declarou que a única chance que os brasileiros tinham de parar  Bolsonaro era realizando uma aliança ampla genuína, autêntica e entusiástica entre o PT e os partidos políticos de centro-direita. “Isso implica em PSDB e MDB pararem com esse discurso de que o PT é chavista”.

E assim, agarrando-se a análises como a de Levitsky, que oculta todo o envolvimento do PT com o Foro de SP, suas relações com as FARC’s e o PCC, muitos “especialistas” e políticos se apoderaram do discurso da polarização, transformando-o em uma narrativa amplamente reverberada nos diversos meios de comunicação, que tentam construir a imagem de um país cuja democracia está em “vertigem”, a fim de deslegitimar o atual governo, que venceu as eleições pelas vias democráticas.

Como efeito colateral, vimos o número de “isentões” se multiplicar e ganhar a simpatia da mídia com seus discursos em prol de uma abordagem política não ideológica, cuja moderação é sua maior virtude.

Contudo, o professor Olavo de Carvalho, em artigo publicado no Diário do Comércio, em 10 de setembro de 2007, intitulado “a ideologia da anti-ideologia“, prova o quanto é ilusória essa ideia de política supra-ideológica. Segue alguns trechos do texto:

“O pragmatismo supra-ideológico não só é uma ideologia, mas é mesmo uma das mais enganosas, já que a maior parte de seus seguidores lhe ignora totalmente as origens e por isso mesmo dificilmente se encontra entre eles um manipulador consciente: são praticamente todos vítimas da ilusão que propagam. Embora leve o nome da escola filosófica fundada por Charles Sanders Peirce e William James, essa ideologia tem pouco a ver com ela; e, embora seja hoje moeda corrente entre os liberais, ela se origina no que pode haver de mais oposto ao liberalismo, isto é, a tecnocracia positivista com seu sonho de substituir a vida política por uma administração científica centralizada. Os pragmatistas supra-ideológicos são tão inconscientes das implicações reais da sua escolha que nem percebem que a hegemonia da racionalidade econômica sobre os fatores ditos ideológicos e “irracionais” da vida social não traria jamais a vitória da liberdade de mercado, mas a expansão ilimitada da administração estatal’.

‘Um mundo sem ideologias é o mesmo que um mundo sem política – é o projeto da “sociedade administrada”, isto é, totalmente controlada, para o qual tantos liberais contribuem inconscientemente por meio de sua adesão ao pragmatismo supra-ideológico, que deveriam antes combater por todos os meios ao seu dispor”.

“O discurso ideológico é, no fundo, nada mais que retórica – o tipo de pensamento que não é voltado para o conhecimento, mas para a ação imediata. A persuasão retórica é absolutamente indispensável à ação prática, na esfera privada como na vida pública. Querer eliminá-la é tão utópico – e tão ideológico – quanto querer suprimir o mercado”.

O escritor, analista político e Doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Eduardo Matos de Alencar, publicou em sua página do Facebook no último domingo (24) um texto que mostra que ao contrário da narrativa que ecoa em uníssono na grande mídia, “a polarização não é, nem nunca será, um problema sério”, mas sim a sua falta:

Em síntese, a narrativa da polarização é uma grande cortina de fumaça, usada como subterfúgio para esconder os reais problemas da política nacional, onde políticos com bons modos, mas com péssimos princípios são colocados como grandes estrategistas, alçados ao status de primeiro-ministro, como é o caso de Rodrigo Maia.
Dessa maneira, o que muitas redações fazem, é expressar suas vontades travestidas de análises políticas, criando uma espécie de realidade alternativa, onde na cabeça dos “gênios” a direita consegue ser ultraliberal, fascista e entreguista ao mesmo tempo, e a esquerda e o centro, são a genuína expressão do que há de mais virtuoso na democracia brasileira.

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Adriano Barros

"Liberal Conservador", graduado em Administração de Empresas, possui extensão em Relações Internacionais e Planejamento Estratégico orientado ao setor público. Apaixonado por Filosofia, História, Música e Literatura. "Si hortum in biblioteca habes deerit nihil".

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