Política

Iêmen: a maior crise humanitária do mundo

O país vive uma crise humanitária sem precedentes. O conflito entre xiitas e sunitas faz com que cristãos sofram ainda mais

O Iêmen é um país árabe localizado na península arábica. Sua maior cidade -Sana’a – é também capital do pais. Devido a uma localização privilegiada, estrategicamente é um país muito importante, situado em uma rota comercial de petróleo, onde navios petroleiros da região invariavelmente passam por ele. O Iêmen também é vizinho de grandes produtores de petróleo do oriente médio, tais como: Arábia Saudita, Oman e Irã.

Xiitas e Sunitas

Embora grande parte da população na região seja de etnia árabe e adepta da religião muçulmana, esta divide-se entre  Xiitas e Sunitas, formadas a partir da disputa pelo direito de sucessão do Profeta Maomé, fundador do Islamismo. Os Sunitas compõem cerca de 90% da população islâmica, e são a grande maioria na península arábica. Já a vertente Xiita forma um grupo minoritário mais radical, cujo domínio se estende apenas a três países dos arredores do Iêmen: Iraque, Irã e o Bahrein.

As origens do conflito

No ano de 2011, um movimento conhecido como Primavera Árabe eclodiu e deu origem a uma série de protestos, conflitos e revoltas buscando mudanças sociais e a derrubada de governos ditatoriais vigentes à época. A Primavera Árabe teve êxito em alguns de seus objetivos, derrubando líderes de países como Tunísia, Egito e Líbano. Assim o movimento chegou no Iêmen,  e como resultado Ali Abdullah Saleh foi deposto do poder.

 A Revolta dos Houthis

Com a deposição de Ali Abdullah Saleh, e em seguida, após sua morte, o controle do país fica nas mãos de Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi, seu vice, identificado com a vertente Sunita, o que resultou num conflito contra os Xiitas. Devido a isso, a minoria Xiita, que se auto intitula “Hutis” (Houthis), inicia então uma série de movimentos contra o presidente atual.

O Ataque

Em 20 de janeiro de 2015 os Hutis se apoderam do Palácio Presidencial em Sana’a e cercam a residência do presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi. O presidente então foge, e assim os Hutis conseguem o controle da sede do governo e da rádio estatal, mas o fato só aumentou a belicosidade do conflito. Os Xiitas ganham um importante aliado: o Irã, país vizinho do Iêmen, já os sunitas, recebem o importante apoio da Arábia Saudita, outro vizinho.

O Contra-ataque

No dia 26 de março de 2015, a Arábia Saudita e seus aliados põem em prática uma intervenção saudita no Iêmen, apoiada por Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Sudão, Egito, Jordânia, Marrocos, e do Catar, até 2017. E assim a “Coalizão Saudita” foi formada – também chamada de “Operação Renewal of Hope “(ORH). A primeira operação da Coalizão é chamada de “Operação Decisive Storm”, cujo principal objetivo foi dar um contragolpe restabelecendo Hadi como presidente. Os ataques foram exitosos e conseguiram neutralizar o exército Hutis já nas primeiras semanas. Como resultado do sucesso dos ataques, em 21 de abril de 2015, a coalizão saudita substitui a Operação anterior pela “Operação Renewal of Hope”, em vigor até os dias atuais.

A Guerra sangrenta

Alguns episódios sangrentos dessa Guerra que se arrasta por anos, chocaram o mundo e escancararam a situação iemenita: Um deles ocorreu no dia 7 de Julho de 2015, ocasião em que grupos Sunitas apoiados pela Arábia Saudita atacaram um mercado na cidade de Harez, no nordeste do Iemen deixando uma pilha de 33 mortos e 67 feridos pelo caminho. Outro episódio chocante deste conflito ocorreu em 11 de Agosto de 2018. A Arábia Saudita e seus aliados realizaram um ataque aéreo a um ônibus em Dahyan, o qual matou 51 pessoas, incluindo 40 menores de idade de acordo com um balanço atualizado divulgado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Crise humanitária e perseguição aos cristãos

De acordo com o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), três quartos da população do país precisa de algum tipo de assistência e proteção. Dessa maneira, a ONU classificou a crise no Iêmen como o maior desastre humanitário da atualidade. Dados de 2019, obtidos junto a UNICEF, mostram que mais de 15 milhões de crianças estão precisando de ajuda humanitária no Iêmen,  e afirma que em quatro anos de conflito 7,3 mil crianças já foram mortas ou feridas. A organização também informa que 360 mil sofrem de má-nutrição aguda severa e metade das crianças do Iêmen com menos de 5 anos – 2,5 milhões – estão com o crescimento atrofiado, uma condição irreversível. Mais de 2 milhões de crianças não frequentam a escola. A ONG britânica de direitos humanos Save the Children apresentou um relatório global no mês de julho deste ano (2020), o qual aponta que devido a pandemia do novo coronavírus, 9,7 milhões de crianças correm o risco de não retornarem à escola. Segundo a revista portas abertas (ano 38, número 8, agosto 2020), mais de 1.100 menores de idade foram recrutados no Iêmen em 2018. O grupo armado Ansar Allah (dos Houthis) foi responsável por 72% dos recrutamentos, que incluem meninas, segundo uma reconhecida ONG iemenita. A igreja no Iêmen é composta majoritariamente por cristãos ex-muçulmanos que precisam manter a fé em segredo. Por terem deixado o Islã, eles enfrentam perseguição das autoridades, em forma de detenções e interrogatórios, da família e de grupos radicais islâmicos, que os ameaçam de morte. Os convertidos que são casados com muçulmanos correm o risco de divórcio e perda da guarda de filhos. O iemenita Mohammad (pseudônimo), se converteu há cerca de 17 anos. “Quando me converti, pensava que era o único cristão no Iêmen; por um longo tempo, não conhecia nenhum outro cristão. Agora conheço vários e há muitos outros como nós”, conta.  

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Adriano de Oliveira Barros

"Liberal Conservador", graduado em Administração de Empresas, possui extensão em Relações Internacionais e Planejamento Estratégico orientado ao setor público. Apaixonado por Filosofia, História, Música e Literatura. "Si hortum in biblioteca habes deerit nihil".

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