Política

Paulo Preto faz Aloysio Nunes pedir demissão

O comunista ex-guerrilheiro foi associado a esquema de propinas

E ontem (19), em meio à crise dos áudios (no melhor estilo salão de cabeleireiro) envolvendo o Presidente Jair Bolsonaro, seu filho Carlos e o ex-Ministro Gustavo Bebianno, uma notícia foi pouca discutida e não teve o destaque merecido na mídia: A prisão de Paulo Vieira de Souza, mais conhecido como Paulo Preto e o pedido de demissão de Aloysio Nunes da agência estadual investe SP do governo de João Dória (PSDB).

Paulo Preto, preso pela terceira vez na manhã de ontem, durante a operação Ad Infinitum, a 60ª fase da Lava Jato, já havia sido detido no ano passado, sendo solto duas vezes por determinação do “deus” do STF –  Gilmar Mendes, que avaliou os recursos nas ações da Dersa, da qual Paulo Preto era diretor. O caso agora está com o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato.

A PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Paulo Preto e a Aloysio Nunes Ferreira Filho, ex-Ministro das Relações Exteriores do Governo Temer. A prisão de Paulo Preto neste momento é estratégica, e visa evitar que os prazos de prescrição de seus crimes caiam pela metade, devido a iminência do ex-diretor da Dersa completar 70 anos de idade.

De acordo com a reportagem do El Pais, o Ministério Público Federal no Paraná, informou que a operação aprofunda a investigação de um complexo esquema de lavagem de dinheiro de corrupção praticada pela construtora Odebrecht, que envolveu além de Paulo Preto, os operadores Rodrigo Tacla Duran, Adir Assad e Álvaro Novis, que mantiveram relações pelo menos entre 2007 e 2017. As transações investigadas superam 130 milhões de reais e correspondiam ao saldo de contas controladas por Paulo Preto na Suíça no início de 2017.

Na Lava Jato em São Paulo, Paulo Preto é réu em duas ações penais envolvendo as obras do Rodoanel Sul e do Sistema Viário de São Paulo. A ação que estava mais adiantada é a de peculato (desvio de dinheiro público), que se encontrava em fase de alegações finais, quando foi anulada por uma liminar em habeas corpus concedida pelo ministro do STF Gilmar Mendes (sempre ele) no último dia 13. A segunda ação é a de crime de cartel no Rodoanel Sul e Sistema Viário de São Paulo, que está na fase de testemunhas de defesa. Uma das testemunhas arroladas por Paulo Preto é Aloysio Nunes.

Um extrato anexado ao processo aponta que em dezembro de 2007, um cartão de crédito fora emitido em nome de Aloysio Nunes, ligado à conta Groupe Nantes, pertencente a Paulo Preto. O documento mostra que a previsão de entrega do cartão era entre os dias 24 e 27 de dezembro daquele ano, em um hotel, onde Aloysio, então secretário-chefe da Casa Civil do governo de São Paulo, estava hospedado em Barcelona.

O esquema criminoso

Segundo o procurador do MPF (Ministério Público Federal) Roberson Pozzobon, em 2010 a Odebrecht tinha “grande demanda de propinas”, por se tratar de ano eleitoral, e Paulo Preto teria fornecido dinheiro em espécie. Em troca, a empreiteira teria feito depósitos no exterior para o operador, ajudando na lavagem do dinheiro.

Assad teria revelado que o operador tucano tinha R$ 100 milhões em dinheiro. “Na residência dele e em um apartamento, onde ele tinha um ‘bunker’ para guardar as propinas. Nos remete ao bunker do Geddel”, disse Pozzobon. Em 2017, a PF encontrou R$ 51 milhões em apartamento atribuído ao ex-senador Geddel Vieira Lima, em Salvador (BA). Ainda segundo a investigação do Ministério Público Federal (MPF), como as notas ficavam em um quarto úmido, às vezes era preciso deixar o dinheiro para secar no sol e, assim, evitar que embolorassem.

Aloysio Nunes

Em seu pedido de demissão, o ex-chanceler de Temer, se diz surpreendido pela ação da Polícia Federal. “Não tive até agora acesso aos autos de inquérito em que sou investigado, mas o fato incontornável é a repercussão negativa desse incidente, que me mortifica a mim e à minha família, e que também pode atingir o governo de Vossa Excelência”, escreveu.

Disse ainda que sua defesa jurídica prestará “irrestrita colaboração com as autoridades para cabal esclarecimentos dos fatos”. Diz ainda que a verdade o beneficiará ao final do processo.

Algo que no Brasil ao longo dos anos tem se mostrado um padrão, é o envolvimento de comunistas e ex-guerrilheiros em escândalos de corrupção. É fácil lembrar de José Genuíno condenado no mensalão, bem como de José Dirceu condenado no mensalão e petrolão, além do mais ilustre revolucionário brasileiro, o comunopetista Luiz Inácio Lula da Silva, domiciliado hoje na carceragem da Polícia Federal na capital paranaense, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro nos casos do Tríplex no Guarujá e do sítio em Atibaia.

Aloysio Nunes parece estar fadado ao mesmo destino. Este, que quando jovem se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), sendo militante estudantil na Faculdade de Direito da USP, onde no Largo São Francisco, presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto. Ainda na Faculdade, rompeu com o PCB e se integrou a Ação Libertadora Nacional (ALN), partindo para a guerrilha, comandado pelo terrorista Carlos Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira.

Por muitas vezes, retratado apenas como o “motorista de Marighella”, Aloysio Nunes, segundo o jornalista Mario Magalhães, autor da biografia “Marighella”, foi muito mais que isso: “foi um revolucionário que participou de numerosas ações armadas. Seu nome de guerra mais usado era Mateus”.

Na noite de 9 de agosto de 1968, Aloysio Nunes juntamente com outras três pessoas, num pequeno apartamento próximo à praça Roosevelt, na capital paulista, preparava-se para o assalto que se tornou numa das ações de guerrilha mais celebradas pela esquerda durante o regime militar no Brasil.

“Às vezes eu lembro da sensação, da incerteza”, contou. “E se não der certo? E se eu for preso? E, se preso, for torturado? E se, torturado, eu falar? Sabe… Era um pavor. Muito medo. Me lembro disso, mas de ter dormido, não. ” Este relato Aloysio fez à Folha, referindo-se à noite que antecedeu o assalto ao trem pagador Santos-Jundiaí, em 10 de agosto. Aloysio, na época com 23 anos, foi o responsável nesta ação do grupo de guerrilheiros da ALN por dirigir um Fusca roubado, usado na fuga de seus comparsas.

É meus caros, por essas e outras que fico me perguntando: onde João Dória estava com a cabeça quando pôs uma pessoa com um histórico desses em seu governo?

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Adriano Barros

"Liberal Conservador", graduado em Administração de Empresas, possui extensão em Relações Internacionais e Planejamento Estratégico orientado ao setor público. Apaixonado por Filosofia, História, Música e Literatura. "Si hortum in biblioteca habes deerit nihil".

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